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Canola e girassol: opções de cultivo para o Brasil

Duas culturas com menor tradição agrícola no Brasil podem ser indicadas aos produtores nacionais que buscam alternativas para compor sistemas de produção: a canola e o girassol. Ambas se adaptam bem à rotação e sucessão de cultivos, como soja e milho, e são consideradas ideais para fabricação de óleo para consumo humano, produção de biodiesel e ainda para obtenção de farelo com alto valor proteico usado na formulação de ração animal. 
 
“A canola é a terceira maior oleaginosa mundial, indicada para cultivo no período mais frio do ano e constituindo uma excelente alternativa para a diversificação de cultura (juntamente com o trigo, no Sul do País, e como cultura de safrinha no Brasil Central. Mas prevalece no Rio Grande do Sul, onde começou a ser plantada há 20 anos, representando a maior parte da produção do País), com 40 mil hectares. No entanto, como é uma Brassicacea (família do repolho), não sendo hospedeira das pragas e doenças das gramíneas e leguminosas, poderia ocupar mais de 1,5 milhão de hectares da área onde se cultivam milho e soja no verão. Ou seja, é alternativa para vários milhões de hectares de terra subutilizados no inverno”, afirma o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Trigo, Gilberto Omar Tomm.
 
Tolerante ao frio e típica de regiões de clima temperado como o Canadá e Europa, a canola é ainda resistente à seca. “Além do Rio Grande do Sul e do Paraná, outros estados também estão ingressando na produção de canola graças ao trabalho persistente de transferência de tecnologia por parte da Embrapa. Minas Gerais é um exemplo disso, principalmente no município de Uberlândia. A descoberta de que era possível produzir canola em regiões secas ocorreu a partir do interesse de uma empresa sediada em Itumbiara (GO), que consultou a Embrapa Trigo sobre essa possibilidade e resultou em cultivos comerciais de sucesso em regiões tropicais no Sudoeste de Goiás a partir de 2004”, diz Tomm.
 
Pesquisas coordenadas pela Embrapa Trigo com a colaboração de instituições de ensino e pesquisa, além de empresas que fomentam o cultivo, têm viabilizado a disponibilização de híbridos resistentes à principal doença, a canela-preta, e adaptados inclusive ao cultivo em regiões tropicais do Brasil Central, em áreas com altitude acima de 600 metros. “Essas cultivares contribuem para o baixo custo de produção da canola porque o emprego de material resistente a essa doença fúngica não requer o uso de agrotóxico”, afirma Tomm.
 
Apesar da possibilidade de cultivo em novas áreas, na safra 2014 o total de canola semeado no País foi inferior a anos anteriores (veja dados da Conab sobre safra na retranca desta matéria). “A área total no Brasil caiu em função de problemas climáticos enfrentados no Paraná em maio e junho de 2013, com chuvas de mais de 700 milímetros, reduzindo a produtividade da lavoura. Isso desestimulou alguns desses produtores a prosseguirem o cultivo nessa safra. No entanto, essa é uma cultura que conta com o seguro do Proagro, que financia a lavoura e isenta o produtor de pagar o financiamento de custeio se houver perda decorrente de eventos climáticos”, explica. 
 
Tomm lembra que a canola nunca será uma cultura isolada. “Ela faz parte de um sistema de produção para milho e soja. Por isso, o produtor dessas culturas que queira apostar em canola já tem o investimento inicial, que são as semeadoras e colhedoras usadas no milho e na soja. Com isso, ele diversifica a produção reduzindo os riscos, otimiza o uso das máquinas por mais horas durante o ano, consegue distribuir as atividades de cultivo e ainda emprega melhor a mão de obra contratada. Basicamente, o conhecimento é o principal investimento para quem deseja plantar canola. Deve-se procurar a Embrapa Trigo, que tem treinado os agrônomos das empresas de fomento para que estas forneçam assistência aos produtores. Cooperativas e empresas que se dedicam à produção de óleo para consumo humano e para a produção de biodiesel se dedicam ao fomento da produção, oferecem treinamento e assistência, fornecem a semente e compram toda a produção”. 
 
Para Tomm, a canola é uma boa opção econômica ao produtor brasileiro porque acompanha o preço pago pela soja. “Além disso, tudo se aproveita da canola e com alta qualidade. Com ela, é possível atender à grande demanda mundial de óleo para consumo humano, extrair óleo para o biodiesel e ainda obter farelo empregado na produção de carnes. Hoje, no Brasil, a canola é mais voltada ao consumo humano e a produção atual não é suficiente para atender à demanda. A indústria brasileira de óleo tem que comprar grãos de canola produzidos no Paraguai”. 
 
O pesquisador diz que, produzindo-se mais canola no Brasil, o preço do óleo cairá e, consequentemente, aumentará o consumo. “A canola tem apelo ao consumidor porque, em sua composição, possui ácidos graxos que reduzem o mau colesterol. Por isso, o óleo de canola é um dos melhores para o coração, pela capacidade de reduzir o risco de cardiopatia coronária, recebendo da agência pública dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), um selo especial”.
 
“Nunca perdemos dinheiro com a canola”
 
 
Tales Ricardo Roso, administrador da Granja Santo Antônio, em Vila Maria (RS), iniciou a produção de canola na propriedade em 2009 com o objetivo de estabelecer parceria no Programa de Produção de Canola da BSBIOS, empresa que possui indústrias para produção de biodiesel e de processamento de grãos com unidades em Passo Fundo (RS) e Marialva (PR). “Com o início da produção de canola para a BSBIOS, de quem já éramos parceiros em soja, pudemos conhecer melhor a cultura, já que nosso foco sempre foi milho e soja. Iniciamos com 55 hectares plantados e hoje estamos com 140 hectares. A canola é uma cultura alternativa de inverno, opção a mais de manejo para diminuir os custo fixos da propriedade. É rentável e tem maior liquidez, diferentemente do trigo. Nunca perdemos dinheiro com a cultura da canola”, observa Roso.
 
Segundo ele, os atuais hectares de área de canola representam 30% da área total de lavoura da Granja Santo Antônio. “Estamos aprendendo a cada ano, mas acredito que faltam mais pesquisas sobre ela para alcançarmos maiores produtividades. Em 2010, obtivemos uma média de 1.200 kg/ha e, em 2013, média de 1.980 kg/ha. Mas sabemos que tem potencial de mais de 2.400 kg/ha. No entanto, não sabemos do que a planta realmente necessita, qual a população ideal para cada cultivar, os macro e micronutrientes para obter maior produtividade. No campo, a semeadura e a colheita são os maiores gargalos. A colheita deve ser realizada com muita calma e com máquinas reguladas, pois pode chegar até 15% de perda facilmente. Usamos o mesmo equipamento para soja, com pequenas ajustes e adaptações, o que nos ajuda a diluir os custos”, diz.
 
Dependendo da cultivar, explica Roso, a semeadura pode iniciar em meados de abril até o fim de maio; a colheita, no mês de outubro. “Esses períodos de plantio e colheita não atrapalham a soja, que começa a ser plantada na segunda quinzena de outubro. Só não conseguimos aumentar mais a área de canola por conta da rotação, que tem o objetivo de evitar doenças como a esclereotina e a canelapreta. Com cultivares resistentes que venham a surgir, com certeza aumentaremos a área. Nos últimos dois anos, optamos pela cultivar Hyola 571, pois ano passado obtivemos bons resultados. Vejo a canola como uma cultura promissora tanto para atender o biodiesel quanto para o óleo comestível. Não é a toa que o mercado está crescendo 20% ao ano”, finaliza.
 
Cidade reúne 80 produtores
 
 
O girassol é outra cultura para quem está interessado em implantar um sistema de produção em sua propriedade agrícola. Tanto que em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso, já são aproximadamente 80 agricultores que se dedicam a esse cultivo, somando atualmente uma área plantada de 100 mil hectares na região e uma expectativa de produção de 170 mil toneladas  nesta safra, já que a produtividade é da ordem de 1,7 mil quilos por hectare. O cultivo local representa 70% do total nacional. 
 
Por esses números, o município é considerado hoje o maior do País em plantio de girassol, segundo Alex Utida, presidente do Sindicato Rural da cidade. Ele observa que as sementes de girassol plantadas na região são a convencional e a alto oleico, esta última considerada de melhor qualidade para atender à demanda das empresas alimentícias. 
 
“Apesar de representarmos 70% do girassol cultivado no Brasil, nossa principal cultura é a soja. Na segunda safra temos algodão, milho pipoca, milho amarelo e girassol, plantados em diferentes épocas, o que cria uma diversificação e diminui os riscos para o produtor local”, observa Utida. Para ele, o cultivo e a produção de girassol continuarão crescendo bastante nos próximos anos na região para atender ao potencial da indústria de alimentos, cada vez mais moderna. “O incremento entre uma safra e outra tem sido da ordem de 30% nos últimos cinco anos. Além da própria indústria montada pelos produtores, outras indústrias se instalaram na nossa região, por isso esse incremento na produção que viabiliza a demanda de óleo. O girassol tem um problema logístico: ele não pode estar longe da indústria em função do peso, que é leve e encarece o frete”, explica.
 
Assim como a canola, o Brasil importa girassol para atender à demanda interna de óleo. “Importamos muitos grãos e óleo de girassol da Argentina para atender o nosso consumo, voltado principalmente para alimentação humana. Precisaríamos de 200 mil hectares de área de cultivo no País e ainda assim não abasteceríamos o mercado interno de óleo. Só que há potencial para o Brasil, porque a produtividade no Cerrado é superior à média do país vizinho. Somente no estado de Goiás, onde há indústria tradicional para consumir o girassol, são aproximadamente 1.800 kg por hectare. Antes, não havia indústria porque não existia produção. E o grande gargalo é justamente o mercado restrito de comercialização. É preciso rever isso. Pelo baixo peso da semente, a produção deve estar em um raio de até 450 quilômetros da indústria”, afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados, Renato Amabile. 
 
Para viabilizar a cultura de girassol no Brasil, a Embrapa lançou nos últimos anos dois genótipos considerados competitivos e superiores às sementes híbridas da Argentina, o BRS 323 e o BR 324. A Embrapa tem a tecnologia básica para ofertar aos produtores, com uma semente local mais barata que a importada. Dependendo da safra, chega a um valor 60% menor. Então, custo não é problema para ampliar o plantio nem a remuneração. A cultura pode entrar após a soja ou o milho, usando-se praticamente toda tecnologia empregada nessas lavouras. O produtor deve apenas se resguardar em relação a alguns agroquímicos usados nessas lavouras porque pode atrapalhar a produção de girassol. Mas nada que um engenheiro agrônomo não possa ajudar a contornar”, explica Amabile.
 
Condições climáticas prejudicam culturas de canola e girassol 
 
De acordo com o último levantamento de safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), realizado em janeiro deste ano, a área cultivada de canola no Brasil para a safra 2014/15 deverá ser de 44,7 mil hectares, queda de 1,8% se comparado com a safra passada. Para o girassol, a área plantada estimada será em torno de 145,7 mil hectares, igual à safra anterior. 
 
“A produção de canola na safra passada foi de 60,5 mil toneladas e, para a safra atual, é esperada uma produção em torno de 36,3 mil toneladas, queda de 40,0% em relação à anterior, com uma produtividade de 812 quilos por hectare. Já a produção de girassol na safra passada foi de 232,7 mil toneladas e a estimativa para 2014/15 é de 208,2 mil toneladas, queda de 10,5%, com uma produtividade em torno de 1.429 Kg/ha. Essa queda de produção e a baixa produtividade ocorreram principalmente devido às condições climáticas verificadas na época de plantio em diversas regiões produtoras”, diz Manuel Araújo Carvalho, técnico de Planejamento da Conab.
 
A maior região produtora de canola no Brasil é a região Sul e a do girassol é o Centro-Oeste. Segundo Carvalho, o valor recebido pelos produtores de canola pelo saco de 60 quilos está em torno de R$ 56,34 em média e para o girassol em, aproximadamente, R$ 54,18. “E a produção das duas culturas é destinada principalmente para as esmagadoras de óleo. Muitas vezes com compras antecipadas”, afirma. 
 
Carvalho ressalta que o volume de canola e girassol no Brasil é tão pequeno em relação à produção mundial que o País nem figura nas principais estatísticas. “Mas é possível mudar essas posições e inserirmos o Brasil no ranking internacional de países produtores das duas culturas dando melhores condições aos produtores com preços mínimos que os estimulem a plantar mais”, conclui.